A diabetes mellitus, que inclui a diabetes tipo 1, tipo 2 e gestacional, é a doença crónica mais frequente no mundo ocidental. Segundo a Organização Mundial de Saúde, em 2014 afetava cerca de 8,5% da população adulta a nível mundial, ou seja, mais de 422 milhões de pessoas com mais de 18 anos. Aprender a gerir a doença é essencial após o diagnóstico. É que, embora seja possível manter uma boa qualidade de vida sendo diabético, é necessária uma vigilância adequada, de forma a prevenir as complicações que a diabetes não controlada pode causar.

Os problemas de bexiga são uma das situações mais comuns. Segundo uma revisão científica publicada pela editora científica Elsevier, cerca de 50% das pessoas com diabetes têm também algum tipo de disfunção da bexiga. Mas Carlos Monteiro, urologista da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP), defende que a proporção é ainda mais elevada, “particularmente se considerarmos que algumas destas alterações têm um período de evolução com manifestações clínicas, mas sem incómodo para o doente e, por isso, sem queixa.” De acordo com alguns estudos, refere o médico, “a incidência de síndrome de bexiga hiperativa na diabetes pode atingir 55% dos doentes”.

Diabetes mellitus e bexiga hiperativa

A relação entre a doença crónica e os problemas de bexiga tem uma explicação simples: a neuropatia diabética, isto é, a lesão dos nervos ocasionada pela glicemia elevada. Este problema tende a afetar doentes mais idosos, com uma história da doença mais longa ou mal controlada. “A diabetes causa lesões dos nervos periféricos e a função miccional depende de um órgão muscular – a bexiga – com controlo neuronal complexo”, explica o especialista.

Os danos nas terminações nervosas, que podem afetar a bexiga, não são, no entanto, a única explicação para a maior incidência de bexiga hiperativa entre doentes com diabetes mellitus. “Para além da lesão neurológica, também a glicosúria – a presença de açúcar na urina – e a poliúria – produção excessiva de urina com micções frequentes – contribuem para o aumento da incidência de bexiga hiperativa. Tal como o aumento de peso, as alterações da musculatura do pavimento pélvico ou alguns fármacos utilizados por estes doentes”, esclarece o urologista.

Como podem os diabéticos prevenir problemas de bexiga? 

Segundo a Associação Portuguesa de Urologia, ter diabetes aumenta em cerca de três vezes a probabilidade de vir a sofrer de disfunções urinárias, nomeadamente de síndrome da bexiga hiperativa. A mais importante medida de diminuição do risco, explica o urologista Carlos Monteiro, “é o adequado controlo metabólico, sob orientação do diabetologista assistente”. Para além disto, de acordo com o especialista, o doente deve tentar implementar progressivamente as seguintes medidas:

  • Controlo ponderal, ou seja, a monitorização da relação entre o gasto energético e as calorias ingeridas, de forma a evitar o excesso de peso;
  • Praticar tanta atividade física quanto possível;
  • Hidratação, mas com restrição de fluidos a partir do fim da tarde;
  • Regularização dos hábitos intestinais;
  • Cessação do consumo de álcool e cafeína;
  • Cessação tabágica;
  • Micção pelo relógio, ou seja, esvaziamento vesical periódico mesmo sem vontade;
  • Treino vesical, pautado pela tentativa consciente de abolir a urgência com atraso miccional;
  • Exercícios de fortalecimento do pavimento pélvico;
  • Correção do hipoestrogenismo genital nas senhoras, com creme de estrogénio tópico.

 

Sabia que…

A diabetes afeta igualmente a função miccional de homens e mulheres, mas a população feminina tem maior incidência de queixas, porque a bexiga hiperativa, a incontinência urinária e a infeção urinária baixa são mais frequentes na mulher.

Tome nota

A diabetes mellitus caracteriza-se pela subida anormal e descontrolada dos níveis de açúcar no sangue (glicemia) devido a problemas ao nível da produção de insulina ou da sua atuação nas células. Distingue-se da diabetes insípida, uma condição relativamente rara que também provoca aumento da micção, mas não afeta os níveis de glicose no sangue.

URO_2020_0080_PT, Nov20