Especialista
Urologista
Assistente hospitalar de urologia do Centro Hospitalar de Lisboa Norte
É vulgarmente conhecida como ‘xixi na cama’, mas o termo mais correto para descrever a perda involuntária de urina durante o sono é enurese noturna. “Os pacientes perdem o controlo dos esfíncteres, os músculos que controlam a saída de urina, e têm perdas durante o sono”, explica o urologista Ricardo Pereira e Silva. Até aos 5 anos, explica o especialista, considera-se que perder urina durante o sono é fisiológico. Só depois dessa idade se considera que há enurese noturna.
Embora seja mais comum na infância, o problema também afeta adultos, dividindo-se entre enurese primária – a pessoa nunca teve controlo dos esfíncteres – e secundária – a pessoa tinha adquirido o controlo dos esfíncteres, mas perdeu-o. De acordo com a organização norte-americana National Association for Continence, a enurese noturna atinge 2% das pessoas com mais de 18 anos. “Na adolescência e na vida adulta, a enurese noturna tem um impacto devastador no quotidiano. Cria problemas de autoestima, impede que o sono seja reparador e perturba a relação com o parceiro. Em muitos casos, os pacientes sentem necessidade de recorrer a apoio psicológico”, explica o urologista.
Identificar a origem
Na maioria dos casos, a perda de urina durante o sono é multifatorial. “Por exemplo, um doente cardíaco pode produzir mais urina durante a noite e tem maior probabilidade de acordar para urinar (noctúria) ou de apresentar perdas de urina durante o sono (enurese)”, explica Ricardo Pereira e Silva. Na sua origem podem estar fatores tão variados como a dificuldade em despertar do sono, disfunção urinária ou doenças neurológicas. Dependendo dos casos, pode tratar-se de uma situação transitória ou que se prolonga no tempo. Os fatores de risco mais comuns são:
- Sofrer de bexiga hiperativa, já que, associada a um sono mais pesado, aumenta muito a probabilidade de ocorrência de perdas de urina durante o sono;
- Produzir urina em quantidade excessiva durante a noite (poliúria noturna);
- Doenças neurológicas em que há perda de controlo dos esfíncteres;
- Ser filho ou neto de alguém com enurese noturna, já que a doença tem uma componente genética elevada.
Perante a ocorrência e persistência do problema, o primeiro passo é avaliar as possíveis causas. Em adultos, está indicada na generalidade dos casos a realização de análises à urina e outros exames complementares de diagnóstico específicos (nomeadamente ecografia do aparelho urinário e estudo urodinâmico). “Poderá também ser importante excluir patologia neurológica, através de uma avaliação deste âmbito”, acrescenta o especialista.
Como tratar a enurese noturna
Quer o doente nunca tenha controlado a perda de urina durante a vida (enurese primária) ou já tinha adquirido o controlo dos esfíncteres, mas o tenha perdido (enurese secundária), a enurese noturna pode ser controlada. “A eficácia do tratamento depende da análise individualizada de cada doente. É preciso perceber exatamente a origem do problema e conhecer detalhadamente a situação clínica do paciente”, considera o urologista.
Só depois é possível estabelecer uma terapêutica o mais eficaz possível. Por norma, o tratamento tem uma componente farmacológica e outra comportamental. Isto é, pode incidir sobre os sintomas – por exemplo, através da toma de medicamentos que ajudem a controlar a produção de urina –, mas passa sempre pela adoção de estilos de vida e hábitos mais adequados.
Adapte os seus hábitos
Para por termo à enurese ou minimizar as suas consequências, siga os conselhos do urologista:
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Limite a quantidade de líquidos ingeridos à noite
“É fundamental beber água (pelo menos 1,5 l por dia), mas se sofre de enurese noturna faça-o sobretudo na primeira metade do dia”, aconselha Ricardo Pereira e Silva. Desta maneira, terá a bexiga mais vazia durante a noite, o que diminui a probabilidade de sentir vontade de ir à casa de banho.
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Evite alimentos e bebidas estimulantes
Café, chá e bebidas alcoólicas ou gaseificadas contribuem para aumentar a atividade da bexiga e contribuem para perdas involuntárias de urina. O mesmo pode suceder com a ingestão de alimentos ácidos ou muito condimentados. O tabaco é também um importante fator de risco, sendo fortemente desaconselhado neste contexto.
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Vá à casa de banho antes de dormir
Mesmo que tenha urinado há menos de meia hora, certifique-se de que tem a bexiga completamente vazia imediatamente antes de adormecer. Este é um hábito simples que pode evitar uma noite desagradável.
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Utilize um despertador durante a noite
Em situações mais graves, a utilização de um despertador pode prevenir episódios de perda de urina. Fale com o seu médico sobre o tema, para perceber qual a periodicidade com que deve acordar – se uma, duas ou mais vezes por noite.
Dica
Saiba mais sobre o funcionamento da bexiga.