Cerca de 40% das mulheres com mais de 50 anos sofrem de algum tipo de prolapso pélvico, um fenómeno que acontece quando um ou mais dos órgãos pélvicos descai. Nestes casos, e excecionalmente em algumas mulheres mais jovens, pode ser necessário recorrer a um pessário, uma estrutura semelhante a um anel vaginal que serve de suporte aos órgãos pélvicos. Sofia Alegra, ginecologista, explica-nos tudo o que é importante sobre este tema.

O que é o prolapso pélvico

De acordo com Sofia Alegra, a prevalência global do prolapso dos órgãos pélvicos baseado na avaliação clínica é de cerca de 40% em mulheres com mais de 50 anos. “O prolapso da parede anterior (prolapso da bexiga) é o mais prevalente, depois o do compartimento posterior e, finalmente, o do útero ou cúpula da vagina”, explica a especialista. O facto de um prolapso ser identificado clinicamente não implica, no entanto, que deva ser tratado. 

“Nem todas as pessoas têm indicação para tratamento. Há muitos prolapsos assintomáticos – a mulher só sente num estadio mais avançado – e considera-se que não há razão para ser interventivo nessas situações”, justifica Sofia Alegra. Assim, o ginecologista “pode recomendar inicialmente medidas conservadoras como fisioterapia e exercícios do pavimento pélvico, mas não terapêutica mais agressiva, nomeadamente cirúrgica.” Pode também recomendar o uso de um pessário.

O que é um pessário

O pessário é uma solução para casos de prolapso genital. Consiste numa estrutura de silicone ou de borracha que vai servir de suporte aos órgãos pélvicos –  bexiga, útero ou reto. “Ao ser alojado profundamente na vagina, o pessário constitui, por si, o suporte dos órgãos pélvicos que possam estar descaídos”, resume Sofia Alegra. 

Em Portugal só é comercializado em formato anelar, mas noutros países existem outros formatos e a escolha é feita pelo médico tendo em conta o grau do prolapso, as características da bacia óssea da mulher e outras “como a mulher menstruar ou não e ter ou não relações sexuais”, indica a ginecologista. As dimensões do pessário são personalizadas através de observação ginecológica: o médico determina qual o diâmetro adequado a cada paciente. 

Em que casos está indicado

O pessário está indicado sobretudo em casos de mulheres mais velhas para as quais a cirurgia está contraindicada, seja de forma permanente ou temporária. “Quando o risco de cirurgia é grande, o pessário constitui um tratamento adequado e confortável que pode ser mais ou menos prolongado no tempo”, indica Sofia Alegra. A especialista considera também outras indicações para o uso de pessário:

  • Numa mulher jovem que deseje ter mais filhos, o pessário pode ser uma terapêutica temporária enquanto aguarda cirurgia de recolocação dos órgãos na sua localização anatómica normal;
  • Numa mulher que tem úlceras associadas ao prolapso dos órgãos, pode ser necessário usar pessário enquanto aguarda pela cirurgia, para promover a cicatrização da vagina. É aplicada uma terapêutica hormonal de estrogénios para curar as úlceras, só depois se passa a cirurgia;
  • O pessário também está indicado em mulheres que já foram operadas, sofreram uma recidiva e não querem voltar a ser operadas. “Os tecidos podem estar de tal forma fragilizados ou haver falência da técnica cirúrgica, que a pessoa pode voltar a ter o mesmo problema pouco tempo depois da intervenção”, justifica Sofia Alegra.

Como é usado o pessário

A forma como o pessário é usado depende do perfil da mulher. “Há senhoras que conseguem proceder à remoção e recolocação do pessário. Nestes casos, ele deve ser substituído de forma bissemanal ou mensal e, em mulheres com vida sexual ativa, o seu manuseamento deve ser personalizado. Por exemplo, há casos em que o pessário pode ser usado durante o dia e removido à noite.”

O pessário também pode ser removido apenas em consultório: “Deve ser feita uma vigilância periódica pelo médico, para ver se pode ser dada continuidade ao uso. A cada três meses convém que o pessário seja removido, para verificar a integridade das paredes vaginais, se não existe infeção nem ulcerações, fazer limpeza e voltar a aplicar”, descreve Sofia Alegra. 

Cuidados a adotar

A utilização do pessário pode envolver cuidados de higiene adicionais para impedir infeções. O objetivo é evitar sinais de alarme como a presença de prurido, corrimento com côr ou mau cheiro e/ou sangramento . “Quando há alguma anomalia, há que procurar o médico para fazer uma observação. Não existe uma recomendação formal para desinfeção periódica durante a utilização do pessário, até porque este tipo de desinfeção, se for excessíva, pode alterar o equilíbrio da flora vaginal e predispor à infeção”, explica a especialista.

Caso a mulher esteja na menopausa, deverá aplicar localmente um creme com estrogénios (hormona feminina), desde que não tenha contraindicação. “Se não houver contraindicação para a utilização de estrogénios locais, é muito importante ir aplicando duas vezes por semana, para manter as boas condições das paredes vaginais – hidratação, elasticidade e equilíbrio da flora vaginal”, alerta a ginecologista.

Evitar o uso de pessário

“A utilização do pessário pode ser uma alternativa, não deve haver receio”, defende Sofia Alegra. Ainda assim, o ideal é mesmo a mulher não precisar de recorrer a esta terapêutica e, para isso, é fundamental que faça exercícios de fortalecimento do pavimento pélvico. “Recomendo que as mulheres façam exercícios de Kegel durante toda a vida ou, pelo menos, desde que engravidam pela primeira vez”, sublinha a especialista.

Os exercícios, explica Sofia Alegra, consistem “na contratura dos músculos do períneo, que se estendem do púbis ao sacro e abraçam o recto, a vagina e a uretra. Ao contrairmos estes músculos temos a sensação de subida do pavimento pélvico. Deve ser contraído três vezes ao dia, 10 vezes de cada vez. Quando a mulher já tem uma boa perceção de como fazer este movimento, deve contrair os músculos de forma sustida, por exemplo contar até três e relaxar de seguida. Com este treino, numa situação de incontinência, a pessoa consegue evitar perdas de urina se for tossir ou espirrar.”

A especialista realça também o papel da fisioterapia, ao ajudar a ganhar consciência e perceção corporal daqueles músculos. ”Recomendo fisioterapia feita por fisioterapeutas especializados nesta área, com destaque para a técnica de biofeedback e eletroestimulação. Há situações em que a fisioterapia por si só não resolve o problema, mas ajuda sempre. Mesmo nas pessoas que têm de ser submetidas a cirurgia devia haver reforço do pavimento pélvico antes e depois da cirurgia”.